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segunda-feira, março 25, 2013

AGORA EU QUERO CASAR


A partir do dia 8 de março de 2013 todos os cartórios do Ceará podem realizar o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo (YEAAHHH!), na verdade eles tiveram até o dia quinze para se adequarem ao novo processo. Enfim, o casamento civil homoafetivo pode ser realizado no Ceará com a ressalva de que o casal que queira contrair matrimônio deve já ter antes o registro de união estável. A seguir um trecho do texto referente ao casamento homoafetivo do desembargador Francisco Sales Neto, Corregedor-Geral da Justiça do Estado do Ceará:
“A conversão em casamento da união estável homoafetiva anteriormente escriturada, poderá, a qualquer tempo, ser requerida pelos conviventes ao Oficial do Registro Civil das Pessoas Naturais da circunscrição do seu domicílio, demonstrando-se o atendimento dos seguintes requisitos:
I – apresentação da escritura de união estável;
II – afirmação de que inexistem impedimentos para o matrimônio;
III – opção quanto ao regime de bens;
IV – esclarecimento quanto ao sobrenome, podendo, qualquer dos contraentes acrescer ao seu sobrenome o do outro;
V – declaração de duas testemunhas, com firmas reconhecidas por autenticidade ou firmada na presença do Oficial, ou porescritura pública, atestando a inexistência de impedimentos legais para o casamento.”
A questão agora é: Por que é tão importante o casamento homoafetivo? Sempre que se entra nesse tema é levantada a afirmativa de que alguns héteros correm quilômetros desse compromisso, que estatisticamente está fadado ao fracasso. Então, por que alguns homossexuais abraçam a causa como se fosse o que há de mais importante, se quem já tem esse direito nem faz tanta questão assim? Vendo com esses olhos parece um objetivo besta. Pois é. O problema é que existem assuntos que as pessoas não pensam mais profundamente, esse é um deles. A maioria assume a postura vigente e “não perde tempo” raciocinando sobre. Podemos perceber a princípio que existem todas as vantagens que o casamento traz economicamente, pois a sociedade passa a entender que ali existem na verdade duas rendas, o que facilita financiamentos, empréstimos, etc, mas não pretendo abordar essa questão mais profundamente. O meu foco aqui é: o casamento é uma forma de aparecer, de ser visto por todos, impedindo que fechem os olhos para a diversidade, que de fato existe, acabando com o medo do desconhecido, portanto, com a ignorância frente à questão da sexualidade.
Ao longo da minha vida, cheguei a uma conclusão: Amor não se discute. Não digo isso para calarmos e seguirmos vivendo nas sombras sem nunca tocar no assunto, pelo contrário. Digo isso com a intenção de tornar tão visível que não existam mais pessoas que definam homossexuais pela sexualidade. Vamos casar e mostrar para todos. Ou não casemos, se não quisermos, o importante é ter o direito a essa escolha.
Outra questão que se levanta contra o casamento homoafetivo extrapola a acusação anterior de ser uma banalidade, mas o trata quase como um crime. É referente a “normalidade” da homossexualidade. Realmente não entendo o que querem dizer com isso, dá até preguiça de discutir. Orientação sexual não tem nada a ver com normalidade. O que é ser normal? De onde tiraram essa tal normalidade? Sei que existem milhares de respostas místicas pra isso, como eu também posso criar milhares de outras para dizer o contrário, mas será que alguma delas é  irrefutável, será que alguma delas é realmente válida? Eu acredito que crença particular não é argumento para nada que está além de si mesmo.
Vamos esquecer esse termo “normalidade” para tratar a orientação sexual, porque isso não tem fundamentação coerente. A palavra que está realmente em questão aqui é COMUM. Casais formados por pessoas do mesmo sexo ainda não são comuns. Não é difícil entender a grande diferença existente entre comum e normal. Comum se refere a frequência de algo, como por exemplo; é comum chover nos meses tal e tal. Normal se refere a uma condição mais profunda que trata do Ser das coisas, acredito que ninguém tenha autoridade para falar de uma normalidade sexual sem recorrer a respostas místicas. Qualquer mudança nesse “comum” é dolorosa e assusta, mas a mudança é condição da vida.
Essa mudança é sempre necessária porque a sociedade para funcionar precisa abranger as particularidades do individuo, particularidades como a diversidade sexual. Caso a sociedade busque uma normatização, em vez de tentar abranger os diversos ciclos sociais se instala uma guerra. Uma guerra entre o indivíduo e a imposição exterior, que o impede de ser completo, desestruturando o meio social, que na verdade tinha função de garantir a paz. 
Não se limita a subjetividade humana, uma guerra contra os tabus sempre vai existir enquanto existirem imposições à subjetividade. Orientação sexual não é nada mais do que uma caracterisca da subjetividade do indivíduo e que não deveria ser reprimida, ser homossexual é uma possibilidade no oceano de possibilidades do sujeito. Mais fácil do que procurar limitar os outros seria viver e deixar viverem, cada um fazendo a sua parte e se respeitando mutuamente – “E foram felizes para sempre” - Eu acredito assim!
Por hora, estamos no meio da batalha para todos sermos completos, com a finalidade de quebrar os tabus impostos a sexualidade. Ás vezes essa batalha é marcada pela violência de intolerantes que não deveriam nem estar pensando em quem se apaixona por quem, quanto mais espancando covardemente pessoas por aí. Mais do que uma batalha declarada, com certeza estamos em uma guerra fria constante, vivemos um cerco de intrigas, fofocas e boicotes. Quantos comentários maldosos? Quantas piadas ofensivas? Quantos empregos perdidos? Claro que sempre encontram desculpas para tal atitude, porque na verdade ninguém "tem preconceito nem nada", mas no fundo (as vezes nem tão fundo) sabemos o real motivo. A violência está em toda parte e todo dia.
O casamento é uma arma nessa batalha, uma maneira de vencer a barreira do comum e gritar para o mundo “eu existo”, impedido que fechem os olhos para a realidade em que vivemos. O casamento homoafetivo é um importante passo para a fixação de uma mudança cultural que ronda a nossa realidade a tempos.
                                  





domingo, março 10, 2013

Um Verão, uma Fazenda, Amor e Um milhão



Sei que o assunto é antigo, mas somente agora eu tive tempo de ver o que aconteceu em A Fazenda de Verão da TV Record. Onde a emissora deliberadamente omitiu o máximo possível o relacionamento amaroso entre duas participantes, Manoella e Angelis, e esse mal provavelmente é o grande motivo de uma delas ter ganho o prêmio.  (Não se sabe quais méritos são preciso para se ter a honra de ser campeão em um reality show desse estilo. Nada contra a Angelis, a ganhadora, mas para mim Manoella era muito mais interessante, mas nunca vou entender os resultados de reality shows).
Não sei se o objetivo da emissora era não dar ibope para a homossexualidade, ou talvez tivessem medo de que as pessoas vissem o quanto elas eram bonitinhas juntas e que talvez ser gay não tenha nada a ver com o demônio  ou algo parecido. Entretanto esqueceram que atitudes tão explicitamente covardes trazem a tona o espírito de revolta.
Primeiro a emissora age como todas as outras no Brasil: com hipocrisia ao tentar fingir que homossexuais não existem e para aqueles que aparecem de qualquer maneira, impondo-se, são condenados ao vilanismo. Podemos perceber bem isso através das tendenciosas edições do programa, que se fixava em mostrar os defeitos e discussões pela metade, já que o casal de meninas resistiu de maneira tão meiga, quase comovente, oficialmente juntas. Outra forma comumente usada pela mídia para trazer o descrédito é fazer do homossexual sempre a figura cômica. Não que não existam gays engraçados, mas tratar todas as pessoas através de esteriótipos vai contra a real diversidade em que vivemos.
Falar de TV e homossexualidade no Brasil e não trazer a tona o caso do beijo lésbico em Amor e Revolução é quase impossível. Porque uma novela que se dizia diferente e tratava de uma revolução (olha que sugestivo) foi preconceituosamente limitada? Ou seja, após a polêmica do "primeiro beijo gay da TV brasileira" foi terminantemente imposto o fim de beijos gays e fim de atos de carinho homossexuais durante a novela, aparentemente chegaram a “deshomossexualizar” um dos personagens. Talvez acreditem que “a cura” para a homossexualidade são roteiristas mais falsamente moralistas e limitados. Talvez acreditem que tirando da televisão aquilo que muitas vezes fecham os olhos para ver dentro da própria casa seja a solução para tudo e não simplesmente deixar de encarar a homossexualidade como problema.
O fato é que o amor entre duas pessoas do mesmo sexo existe. E daí? (Meu sonho era ouvir essa pergunta toda vez que eu fizesse essa afirmativa. Por hora fica só no texto mesmo) E daí, que poderiam morrer de tentar camuflar o relacionamento de Manoella e Angelis dentro do programa, que ele iria aparecer. Não se pode fechar os olhos para a realidade, na verdade se os olhos estivessem abertos veriam um casal igual a outro qualquer (a meu ver me pareceu bem mais sincero e apaixonado do que muitos dentro desse e de outros programas – não que eu seja uma especialista). Era um casal carinhoso, que sentia ciúmes, onde uma cuidava da outra. Um casal que, em especial, não fazia mal a ninguém. Na verdade fazia bem a tantos homossexuais que não se vêem representados pela mídia.  
Ao analisar os vídeos e os comentários que haviam nelas pude perceber a imensa carência que o público gay tem frente a representação. Na medida em que pequenos fragmentos de carinho entres as participantes era caçado e comemorado como grande vitória. Como exemplo de simples selinhos fora de foco bem ao fundo das cenasSimplesmente todo um montante de pessoas que se vêem obrigadas a agirem tal qual mendigos buscando encontrar identidade, implorando por um pouco de atenção positiva da mídia. A TV Record chegou ao extremo de censurar o relacionamento do casal não apenas na edição do programa, mas incluía as cenas do 24 horas pela internet, os profissionais que cuidavam das câmeras cortavam um dobrado para não filmarem nenhum beijo.
Talvez se a emissora tivesse agido com naturalidade frente a essa situação (não que eu ache que isso fosse possível, não espero nada tão sensato desta e das outras emissoras de TV no Brasil) não tivesse despertado tanta comoção dos que se vêm diretamente envolvidos com o preconceito, em especial os homossexuais que sofrem todos os dias com isso e que certamente votaram em massa, não teria despertado uma especie de compaixão entre os que geralmente não se envolvem nesse processo de libertação do indivíduo. Cheguei a ver em muito comentários dos vídeos na internet (que foi por onde analisei o programa) pessoas se dizendo heterossexuais e que a maneira que esse relacionamento estava sendo tratada era errada e injusta. Pessoas essas que se juntaram a massa de votos: o voto contra o preconceito. Pois, como é sabido, nesses programas os participantes saem ou não do programa através do voto do público.
Enfim, ter tratado toda essa situação com naturalidade despertaria a revolta do oposto dessas pessoas, despertaria a ira dos conservadores, hipócritas e falsos moralistas que teriam buscado banalizar aquele amor. Como exemplo disso, vimos muitas vezes entre os outros participantes do programa que faziam piadas sexuais sobre o casal (o que não se via relativo aos casais heterossexuais) e comentários maldosos sobre o caráter das envolvidas, justamente porque para eles aquele show de fofura não era censurado. Provavelmente esses conservadores votariam em massa e em suas cabeças problemáticas votariam a favor dos bons costumes.
Quando coloco a palavra “censurado” no texto é que consigo ver a seriedade existente nessa atitude, como se fosse a exibição de sirial kilers em ação, ou apologia as drogas, ou pornografia, ou pedofilia. Não que simplesmente trata de duas mulheres que têm carinho uma pela outra e que se tratam de maneira tão admirável. Eu digo mais: um exemplo para vários relacionamentos movidos pelo desrespeito entre os envolvidos, ou movidos pelo simples desejo sexual e interesses mesquinhos de várias categorias.
A emissora “atirou no próprio pé” ao condenar o que teve de melhor no programa ao obscurantismo. Apenas conseguiram retratar um âmbito da realidade enfrentada pelos homossexuais no país, criando uma identidade entre as corajosas participantes e o público que sente na pele os arroubos da injustiça e do preconceito todos os dias. Bastava para a emissora tratar com naturalidade, aquilo que de fato é natural, jogando para o público uma realidade e nunca se posicionando de maneira hipócrita e covarde ao impor qualquer prejulgamento, fugindo inclusive da essência do programa. Dessa forma deixaria para o público a responsabilidade pelo posicionamento que viessem a ter, tanto os conservadores hipócritas, quanto as pessoas que entendem a diversidade. Seria uma batalha mais justa, interessante de se ver, intensa de se viver e bem difícil de ganhar, mas apenas a retratação de uma batalha que já existe.