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segunda-feira, abril 18, 2016

Cara, teu pastel não é favor pra ninguém


Fotografia: Dorothea Lange


À alguns dias me peguei observando uma família como outra qualquer: pai, mãe e filhinha. O homem era agressivo e constantemente repetia VIM TRAZER A MULHER PRA COMER. A senhora apenas sorria constrangida e abraçava a filha, enquanto ele agora ameaçava o pasteleiro caso houvesse demora HOJE EU NÃO TÔ BEM, NÃO, É MELHOR ISSO NÃO DEMORAR, e se voltava para outro cliente, NÃO QUERO NEM APANHAR AQUI NO MEIO DA RUA... VIM TRAZER A MULHER PRA COMER. Assim seguiu até que saí o mais rápido possível. 
Mas no meio dessa situação toda eu percebi que existia algo além da cena ridícula daquele homem e que não tinha nenhuma relação com ele especificamente. Eu observei o quanto aquela mãe, na verdade que a maioria as mães se esforçam muito pra proteger os filhos de situações como essas. Mesmo quando elas muitas vezes estão enfrentando os próprios tormentos. Ao mesmo tempo em que lutam para resolverem tudo, agradar aos dois lados, elas estão presas pelas próprias limitações.
O terrorismo sofrido pela mulher vem bem antes do nascimento dos filhos. O mundo machista muitas vezes faz as mulheres acreditarem que são frágeis e precisam de um homem, qualquer um, seja ele como for. Essas mesmas mulheres constantemente escutam que cabe a elas aceitarem tudo e resolver qualquer tipo de situação.  
Os maridos podem ser defeituosos e cometem erros, já que eles são seres fundamentais, mas elas não. Elas têm que os entender e apaziguar os dramas da família, sem magoar... E sozinhas. Até parece uma Conversa antiga, mas não é. Ainda é bem possível que algumas dessas resignadas mulheres até digam para as filhas: “Os homens são assim mesmo”.
Então, muitas vezes observo pessoas culpando as próprias mulheres por essa suposta “fraqueza” de algumas mães por não venceram as barreiras previamente existentes e que essas "fraquezas" são o motivo absoluto do seu também suposto “fracasso”. A meu ver, essa sim é a maior covardia de todas.
Longe de mim me meter nas decisões dos outros, apenas acredito que as mães são seres espetaculares, sim, e que influenciam muito em quem nós somos (isso é inegável), mas tudo isso é devido ao nosso amor, é pelo que sentimos por elas. Porém, nós não podemos esquecer que elas são seres humanos e que não devem carregar o peso do mundo nas costas, nem que seja o peso do nosso mundo.
Sozinhas elas fizeram e fazem o melhor que podem. É bem provável que a sua dor não seja maior do que a dor da sua mãe, mesmo que ela acredite seja, é bem provável que suas falhas não sejam mais aceitáveis do que as dela, mesmo que pra ela sejam.
Não podemos fazer o mesmo jogo desses maridos que agem como se fosse um favor terem formado uma família e um favor maior ainda levar a esposa e a filha para comer pastel. Não podemos jogar nas costas das mães a responsabilidade de nossas dores atuais e da nossa realidade. 
Todo um complexo emaranhado de coisas fez com que chegássemos onde nós estamos e isso inclui em especial nossas escolhas. Sejamos sempre gratos às mães porque, independente de nossas realizações, eu realmente acredito que em geral elas fizeram o melhor que puderam com os instrumentos que tinham a disposição. 






sexta-feira, janeiro 29, 2016

"NADA IMPEDE O ABRAÇO DE SER ASA"








Costumo dizer que não sei exatamente a minha idade. Tenho por volta de X anos. Deixei de contar a minha idade quando completei 14 anos. Até lá mais idade era sinônimo de liberdade - queria entrar nas sessões de cinema - depois disso eu logo percebi que mais idade poderia ser um fardo pesado.
Certa vez, relatando essa mesma história batida tive como resposta: "Já, eu gosto da minha idade. Toda vez que penso nela lembro da experiência que eu tenho, das coisas que vivi." Feitiço lançado contra o feiticeiro me pus a pensar sobre aquele aforismo.
As escolhas ficam tão mais fáceis quanto mais experiência se tem? Será? Será que é mais fácil escolher com mais experiência? Por quê, então, que eu vejo pessoas com tanta experiência incapazes de escolher. De escolher mesmo, naquele sentido que o Ash grita pro Pikachu: "Pikachu, eu escolho você!" Será que não é mesmo o contrário? A experiência não torna mais fácil o não-escolher? O ato de diante de uma escolha dizer a ela "não" ? O que será que eu vivi até agora? O que seria essa experiência que eu tenho ou deveria ter? Ou melhor, pra quê serve essa experiência toda se as escolhas ingênuas são as mais prazerosas?
Há alguns anos atrás qualquer saída para um shopping ou o citado cinema era uma diversão. Hoje não. Qualquer show era um grande evento, hoje não. Qualquer viagem era um divisor de águas na minha vida, hoje não. Posso estar ficando cada vez mas ranzinza, mas eu acho que a experiência de certa forma banaliza as novas experiências, que aos olhos da experiência parecem velhas. Vai ver a experiência é uma droga lícita na qual todos ficamos progressivamente viciados e queremos dela sempre e sempre uma dose maior, algo que nos faça lembrar daquela primeira dose que de tão esquecida no passado alguns diriam que tem a ver com a figura materna.
Para onde foi o encanto do hoje banal, pra onde foi a novidade do cotidiano são perguntas válidas, mas o que me interessa é o que será escolhido daqui pra frente. O que, depois de todas as viagens que eu já fiz, define a minha próxima escolha de destino? Ou melhor: como deixar de dizer não e passar ao sim, ao escolher?