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quinta-feira, outubro 31, 2013

CARA METADE




              Com grande frequência encontro pessoas que aparentemente só se importam com uma coisa, e elas chamam essa coisa de “amor”. Não sei o que seria de verdade. Essas pessoas basicamente se resumem a falar do certo alguém que a interessa, estando ou não em um relacionamento. Além de bem chato, considero essa atitude um tanto preocupante. Em especial, porque o que se fala antes da relação não se demonstra no durante, muito menos ao final eminente. Antes era lindo e seria perfeito, no sonho tudo são flores, mas durante a relação apenas reclamações e desavenças. Onde foi parar todo aquele sonho de perfeição que resolveria todos os problemas da vida? 
            Será que existe algo mais decepcionante do que a busca por uma "cara metade"? Decepcionante pela quase impossibilidade de se encontrar alguém tão compatível, com quem se tem um relacionamento em que tudo é perfeito e que embates nunca acontecem. Principalmente porque quem acredita que isso é possível encara uma realidade muito triste, na qual as pessoas não são seres completos por si mesmos, onde sempre é preciso que exista outra pessoa que traga junto de si a felicidade. Triste é uma realidade pela qual se vive com o único fim de esperar por alguém que traga, finalmente, algo de significativo as nossas vidas, como se não fossemos donos do nosso destino. Então reformulando o começo do paragrafo; existe algo mais decepcionante e triste do que a busca por uma "cara metade"?
            Objetivamente, não vejo nada de vantajoso nessa relação "perfeita", na qual se vive coberto de uma permissividade disfarçada de compreensão e cumplicidade, pois tal atitude faz com que percamos o mais importante de se relacionar com outra pessoa: crescer. Encarar as diferenças faz com que cada vez mais consigamos desenvolver quem somos, nos relacionarmos com os outros é um processo de autoconhecimento e crescimento importantes, pois é através das relações com os outros que nos colocamos a prova todo o tempo.
            Da mesma forma não acredito que alguém queira de fato carregar o peso de outra vida, ou seja, a responsabilidade de toda felicidade de alguém. Isso quando realmente existe uma preocupação com a felicidade do outro e não só com o próprio ego. Ser feliz não é pra ser mérito de ninguém mais além de nós mesmos, encontrar em si a felicidade é mais real do que qualquer momento de intenso prazer que outra pessoa possa proporcionar.
            Não acho saudável a busca de uma "cara metade" como a dos contos de fadas, no qual o beijo marca o "felizes para sempre". Não podemos esquecer que o "sempre" é tempo demais e que as pessoas erram e que nós também erramos, porque de fato não existe um ideal e que não seremos o ideal de ninguém. Mas tudo bem porque assim construímos quem somos. Acredito que o mais importante é buscar a companhia verdadeira, aquela pessoa que nos inspira, que faz com que queiramos ser sempre melhores.



quarta-feira, setembro 11, 2013

As Vezes é Só Isso Que Falta...



Observando a atitude dos meus adolescentes comunicativos (meus alunos), vi um grupo de meninas simplesmente com raiva de uma outra que até a semana passada era grande amiga de todas. Sei que esse tipo de atitude é comum nessa idade, mas nem por isso podemos deixar a crueldade correr solta. Em especial porque adolescentes demonstram orgulhosamente o que sentem, talvez sem entender exatamente o que sentem, então podem ser extremamente cruéis. Mas acredito que a intenção deles seja se expor, se mostrar como queriam ser vistos. 
 Bem… pensando só um pouquinho mais, isso não é exclusividade do adolescente, isso é coisa de pessoas inseguras, sem autoconhecimento que podem estar em qualquer fase da vida. Ser adolescente e agir assim é compreensivo, o problema é que essa “desculpa” em certo momento deixa de servir.
Muitos passam a vida inteira procurando grupos para se mancomunar em busca de identidade e aceitação que não encontram em si mesmos, para, enfim, procurar reprimir aqueles que na verdade só querem viver a vida a sua maneira, com os próprios objetivos, resolvendo os problemas que venham a surgir. Problemas que já seriam difíceis o suficiente. Já não bastava toda essa dificuldade (porque viver é difícil), ainda chegam pessoas que se encontram também enfrentando seus próprios dramas, mas que intencionalmente se interessam em atrapalhar os outros. Por que?
Eis a questão. Pessoas que precisam reprimir outras, para de alguma maneira se mostrarem superiores. Mas essa coisa de superioridade realmente não existe. Agir de forma cruel procurando parecer inatingível demonstra apenas que a pessoa se vê pequena e frágil, na medida em que ela é de fato pequena e frágil. Quem é forte e tem confiança em si mesmo, simplesmente é, não pensa sobre isso, não se esforça para mostrar qualquer coisa.
“Tudo bem” um adolescente ter certas atitudes vis, enquanto essas atitudes forem somente momentos. Porque, em geral, ninguém nasce dominando ou conhecendo as potencialidades que possui. Porque a nossa essência, quem somos, só encontramos vivendo. Menosprezar os outros para se sentir melhor consigo mesmo se torna pouco importante quando se encontra a própria força, quando se efetiva a potencialidade, alcançando assim a felicidade em si mesmo. Na medida em que se percebe que não precisa de ninguém “abaixo” para se estar “a cima”, porque na verdade não existe esse “abaixo” ou “a cima”, existem pessoas como eu, como todos os seres, que estão lutando para viver da melhor maneira possível, cada um com seus princípios, as suas necessidades, seu modo de ser. Mas todos estamos, crescendo, aprendendo, lutando, vivendo intensamente. Quem é realmente confiante de si quer na verdade que todos encontrem o seu melhor para poderem viver em um mundo onde as pessoas são mais felizes, um mundo onde não existe crueldade, pois entendo que a crueldade é fraqueza. 
Observando um pouco mais meus alunos antes de tomar alguma atitude percebi que a recém excluída do grupo estava namorando um rapaz também da sala de aula (Inveja. Identificado o problema, pensei). Essa era a única coisa notadamente diferente na rotina dela. Percebi também que ela não precisava da minha intervenção, ela conseguia levar a situação com resignação. Senti orgulho ao ver uma jovem, em um momento tão difícil, equilibrada como ela estava. Então, para não atrapalhar e desestabilizar a garota de alguma maneira, eu resumi a minha atitude a apenas demonstrar a ela que havia percebido a tensão existente e que se ela tivesse necessidade de algo poderia me procurar. 
As vezes é só isso que falta para nos sentirmos capazes, as vezes só precisamos que outras pessoas nos vejam como pessoas capazes antes de nós mesmos, e que demonstrem que somos compreendidos de alguma maneira. Em especial, somos mais fortes e melhores quando não nos sentimos sozinhos nessa tempestade que é viver, nem que seja por um instante. Tão mais simples seria ajudar, criar vínculos  Já que todos estamos no mesmo barco, devemos também remar em sincronia. Um olhar de afeto e compaixão é mais fácil do que atitudes de reprovação e desprezo. É também mais valioso, atitudes positivas são mais significativas e profundas. Ao falar com a aluna, pude notar o alívio em seus olhos, não porque ela não estivesse se saindo bem, mas porque ela não estava só, que mais alguém estaria ao seu lado caso fosse preciso. 

sexta-feira, julho 05, 2013

PARADA PARA QUEM?




A alguns dias vi uma matéria muito triste sobre a agressão e prisão de homossexuais na Rússia, eles foram presos pelo simples fato de terem expressado sua homossexualidade em uma tentativa de parada gay. Na Rússia, qualquer tipo de expressão pública de uma relação homossexual é proibida, para a proteção das crianças e adolescentes. Mas me pergunto como eles pensam que podem proteger a juventude impedindo que esses sejam completos e livres para aceitarem o que de fato já sentem? Toda essa situação dramática me fez refletir sobre a essência da parada gay. 
Porque, até então, via a parada gay, pelo menos em Fortaleza, como um movimento que de certa maneira perdeu o seu foco. Aparentemente a maioria dos presentes não entendem bem o motivo da parada existir. Apenas sabem que existe uma grande possibilidade de conhecer gente nova e ouvir muita música, como uma grande festa que dura quase um dia inteiro e que é inteiramente grátis. Não querendo nunca desmerecer as pessoas que realmente levantam a bandeira e buscam que os diretos que cabem a todos os seres humanos sejam respeitados, em geral me sentia desconfortável em estar presente em um movimento que era pra ser tão sério, mas que é levado dessa maneira quase que banal pela maioria. Mas ao ver pelo que aquelas pessoas corajosas na Rússia passaram lembrei ou descobri (não sei bem) o real motivo de uma parada gay. 
Quero estar na Beira Mar dia 7 de Julho na parada gay de Fortaleza por aquelas pessoas na Rússia e por todas as outras que em todo o planeta são proibidas de serem completas, que são obrigadas a sentirem vergonha por amar. Quero que aquelas pessoas na Rússia saibam que apenas em uma cidade, nem tão grande assim, no Brasil exitem milhares de pessoas que são satisfeitas e realizadas por serem quem são e que gritam para o mundo “eu existo”. 
Quero que eles saibam que não estão sozinhos porque essa luta é de todos nós, de todos os seres humanos, pois enquanto existirem limitações para a subjetividade humana ninguém será de fato livre. 



quinta-feira, junho 06, 2013

Aquilo Que o Coração Não Sente





         Hoje vi alguns jovens rirem de um senhor, morador de rua, provavelmente senil, andando de cueca pela praça. Além dos trages, ele fazia sons com a boca que não pareciam palavras, embora eu acredite que pare ele aqueles sons significassem algo. O senhor não conseguia andar em linha reta e nem cheirava bem, mas enquanto estive lá não o vi incomodar propositalmente a ninguém, apenas ficava andando e "falando", com um cigarro apagado na mão, de um lado para o outro. Enquanto isso rapazes de dentro de um carro parado em frente a praça desperdiçaram longos minutos simplesmente rindo do senhor. 
Fiquei me perguntando do que exatamente eles estavam rindo, Se de uma pessoa que tinha perdido ou nunca tido (não sei) a capacidade de discernir sobre as coisas, a capacidade de entender que se condicionou usar um pouco mais de roupa em ambientes públicos e de usar uma das línguas já existentes, que mais de uma pessoa domina e não uma linguagem particular que apenas interessa a ele. Ou talvez eles estivessem rindo de uma pessoa andando descalça sob o Sol ao meio-dia em Fortaleza e que apenas tinha para se proteger uma simples peça de roupa, onde ele guardava uma carteira de cigarros sem cigarros dentro.
Cheguei a conclusão de que quero bem longe de mim pessoas que não demonstram nenhuma sensibilidade frente as condições de vida do outro. Dizem que o que determina o ser humano é a razão, pois que seja, mas o que determina que "tipo" de ser humano essa criatura racional vem a ser é a sensibilidade. Caso a tivessem, pelo menos um pouco, não olhariam para um senhor de idade sozinho, sem roupa, descalço e ririam como se fosse um objeto para o seu entretenimento. Pelo jeito as pessoas riem daquilo que o coração não sente.
Espero ter em minha vida particular apenas pessoas que olhem e vejam o que de fato se tem para ver em toda essa cena: o sofrimento, a miséria, o abandono. Espero manter pessoas que se comovam e se revoltam com a dor alheia. Certamente aos olhos dessas pessoas nada nessa cena  teria a menor graça.

quarta-feira, abril 10, 2013

O QUE É INEVITÁVEL




Difícil quando “a dor” se projeta em outras coisas, quando encontra representação em coisas cotidianas e por isso se torna inevitável. Sentir “a dor” é inevitável. Por alguns instantes, você a aceita resignada e, em outros, só consegue pensar o quanto aquilo não é justo. Até que, um dia, você acorda e pensa: hoje eu acordei bem, finalmente passou. Talvez não chegue nem a terminar de desenvolver esse raciocínio quando se vê novamente imerso naquela realidade melancólica. É... A gente se engana quase sempre.
A dor física tem um sentido direto, objetivo e importante de ser, chama atenção para algo. A dor física traz a tona que algo está mal no organismo. Mas a dor emocional parece que só nos deixa “boiando” na realidade, enjoados e sem rumo. O interessante é que ela pode ser tão intensa que se torna física, talvez para ser mais bem compreendida enquanto dor. Não sei. O problema é que, para essa dor, tornando-se física ou não, não temos remédio.
Saber que, com o tempo, ela vai passar, ou pelo menos vamos nos acostumar a ela e, quem sabe, deixar de “boiar” e finalmente retomar as “rédias” da própria vida pode vir a ser um consolo para aqueles que são pacientes. Mas isso a gente só sabe mesmo depois que saímos da tormenta, não tem jeito. Durante a tempestade até se pensa, mas no fundo não se acredita. Os dias tornam-se infinitos e aquela dor, “a dor”, parece que vai ser eterna.
Não existe um meio para acelerar esse processo de superação. Existem apenas medidas paliativas que anestesiam, mas não acabam com “a dor”, só nos fazem não enxergar o problema por algum tempo. Não digo que isso seja algo ruim, podemos naquele momento não estar prontos para resolver certas questões, em outro estaremos.
O que considero errado nessas anestesias emocionais é envolver outras pessoas, usar outra pessoa para fugir de questões que são só nossas... Isso, sim, que não é justo. Nossa dor é parte da NOSSA evolução. Ninguém merece a pressão de nos salvar de nós mesmos, ninguém deve carregar essa responsabilidade além de nós. Pedir ajuda, com certeza, é válido, mas esperar que alguém seja responsável pela superação que deve partir de nós é ingênuo e cruel ao mesmo tempo.
Acredito que a dor emocional tem exatamente a mesma função de um dor física, chamar atenção para algo que está mal. Portanto, ignorar essa dor pode ser bastante prejudicial para o nosso desenvolvimento, e o tratamento para ela é bem particular e sútil. Crescer dói, mas não devemos ter medo. E também não devemos ter pressa.

segunda-feira, março 25, 2013

AGORA EU QUERO CASAR


A partir do dia 8 de março de 2013 todos os cartórios do Ceará podem realizar o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo (YEAAHHH!), na verdade eles tiveram até o dia quinze para se adequarem ao novo processo. Enfim, o casamento civil homoafetivo pode ser realizado no Ceará com a ressalva de que o casal que queira contrair matrimônio deve já ter antes o registro de união estável. A seguir um trecho do texto referente ao casamento homoafetivo do desembargador Francisco Sales Neto, Corregedor-Geral da Justiça do Estado do Ceará:
“A conversão em casamento da união estável homoafetiva anteriormente escriturada, poderá, a qualquer tempo, ser requerida pelos conviventes ao Oficial do Registro Civil das Pessoas Naturais da circunscrição do seu domicílio, demonstrando-se o atendimento dos seguintes requisitos:
I – apresentação da escritura de união estável;
II – afirmação de que inexistem impedimentos para o matrimônio;
III – opção quanto ao regime de bens;
IV – esclarecimento quanto ao sobrenome, podendo, qualquer dos contraentes acrescer ao seu sobrenome o do outro;
V – declaração de duas testemunhas, com firmas reconhecidas por autenticidade ou firmada na presença do Oficial, ou porescritura pública, atestando a inexistência de impedimentos legais para o casamento.”
A questão agora é: Por que é tão importante o casamento homoafetivo? Sempre que se entra nesse tema é levantada a afirmativa de que alguns héteros correm quilômetros desse compromisso, que estatisticamente está fadado ao fracasso. Então, por que alguns homossexuais abraçam a causa como se fosse o que há de mais importante, se quem já tem esse direito nem faz tanta questão assim? Vendo com esses olhos parece um objetivo besta. Pois é. O problema é que existem assuntos que as pessoas não pensam mais profundamente, esse é um deles. A maioria assume a postura vigente e “não perde tempo” raciocinando sobre. Podemos perceber a princípio que existem todas as vantagens que o casamento traz economicamente, pois a sociedade passa a entender que ali existem na verdade duas rendas, o que facilita financiamentos, empréstimos, etc, mas não pretendo abordar essa questão mais profundamente. O meu foco aqui é: o casamento é uma forma de aparecer, de ser visto por todos, impedindo que fechem os olhos para a diversidade, que de fato existe, acabando com o medo do desconhecido, portanto, com a ignorância frente à questão da sexualidade.
Ao longo da minha vida, cheguei a uma conclusão: Amor não se discute. Não digo isso para calarmos e seguirmos vivendo nas sombras sem nunca tocar no assunto, pelo contrário. Digo isso com a intenção de tornar tão visível que não existam mais pessoas que definam homossexuais pela sexualidade. Vamos casar e mostrar para todos. Ou não casemos, se não quisermos, o importante é ter o direito a essa escolha.
Outra questão que se levanta contra o casamento homoafetivo extrapola a acusação anterior de ser uma banalidade, mas o trata quase como um crime. É referente a “normalidade” da homossexualidade. Realmente não entendo o que querem dizer com isso, dá até preguiça de discutir. Orientação sexual não tem nada a ver com normalidade. O que é ser normal? De onde tiraram essa tal normalidade? Sei que existem milhares de respostas místicas pra isso, como eu também posso criar milhares de outras para dizer o contrário, mas será que alguma delas é  irrefutável, será que alguma delas é realmente válida? Eu acredito que crença particular não é argumento para nada que está além de si mesmo.
Vamos esquecer esse termo “normalidade” para tratar a orientação sexual, porque isso não tem fundamentação coerente. A palavra que está realmente em questão aqui é COMUM. Casais formados por pessoas do mesmo sexo ainda não são comuns. Não é difícil entender a grande diferença existente entre comum e normal. Comum se refere a frequência de algo, como por exemplo; é comum chover nos meses tal e tal. Normal se refere a uma condição mais profunda que trata do Ser das coisas, acredito que ninguém tenha autoridade para falar de uma normalidade sexual sem recorrer a respostas místicas. Qualquer mudança nesse “comum” é dolorosa e assusta, mas a mudança é condição da vida.
Essa mudança é sempre necessária porque a sociedade para funcionar precisa abranger as particularidades do individuo, particularidades como a diversidade sexual. Caso a sociedade busque uma normatização, em vez de tentar abranger os diversos ciclos sociais se instala uma guerra. Uma guerra entre o indivíduo e a imposição exterior, que o impede de ser completo, desestruturando o meio social, que na verdade tinha função de garantir a paz. 
Não se limita a subjetividade humana, uma guerra contra os tabus sempre vai existir enquanto existirem imposições à subjetividade. Orientação sexual não é nada mais do que uma caracterisca da subjetividade do indivíduo e que não deveria ser reprimida, ser homossexual é uma possibilidade no oceano de possibilidades do sujeito. Mais fácil do que procurar limitar os outros seria viver e deixar viverem, cada um fazendo a sua parte e se respeitando mutuamente – “E foram felizes para sempre” - Eu acredito assim!
Por hora, estamos no meio da batalha para todos sermos completos, com a finalidade de quebrar os tabus impostos a sexualidade. Ás vezes essa batalha é marcada pela violência de intolerantes que não deveriam nem estar pensando em quem se apaixona por quem, quanto mais espancando covardemente pessoas por aí. Mais do que uma batalha declarada, com certeza estamos em uma guerra fria constante, vivemos um cerco de intrigas, fofocas e boicotes. Quantos comentários maldosos? Quantas piadas ofensivas? Quantos empregos perdidos? Claro que sempre encontram desculpas para tal atitude, porque na verdade ninguém "tem preconceito nem nada", mas no fundo (as vezes nem tão fundo) sabemos o real motivo. A violência está em toda parte e todo dia.
O casamento é uma arma nessa batalha, uma maneira de vencer a barreira do comum e gritar para o mundo “eu existo”, impedido que fechem os olhos para a realidade em que vivemos. O casamento homoafetivo é um importante passo para a fixação de uma mudança cultural que ronda a nossa realidade a tempos.
                                  





domingo, março 10, 2013

Um Verão, uma Fazenda, Amor e Um milhão



Sei que o assunto é antigo, mas somente agora eu tive tempo de ver o que aconteceu em A Fazenda de Verão da TV Record. Onde a emissora deliberadamente omitiu o máximo possível o relacionamento amaroso entre duas participantes, Manoella e Angelis, e esse mal provavelmente é o grande motivo de uma delas ter ganho o prêmio.  (Não se sabe quais méritos são preciso para se ter a honra de ser campeão em um reality show desse estilo. Nada contra a Angelis, a ganhadora, mas para mim Manoella era muito mais interessante, mas nunca vou entender os resultados de reality shows).
Não sei se o objetivo da emissora era não dar ibope para a homossexualidade, ou talvez tivessem medo de que as pessoas vissem o quanto elas eram bonitinhas juntas e que talvez ser gay não tenha nada a ver com o demônio  ou algo parecido. Entretanto esqueceram que atitudes tão explicitamente covardes trazem a tona o espírito de revolta.
Primeiro a emissora age como todas as outras no Brasil: com hipocrisia ao tentar fingir que homossexuais não existem e para aqueles que aparecem de qualquer maneira, impondo-se, são condenados ao vilanismo. Podemos perceber bem isso através das tendenciosas edições do programa, que se fixava em mostrar os defeitos e discussões pela metade, já que o casal de meninas resistiu de maneira tão meiga, quase comovente, oficialmente juntas. Outra forma comumente usada pela mídia para trazer o descrédito é fazer do homossexual sempre a figura cômica. Não que não existam gays engraçados, mas tratar todas as pessoas através de esteriótipos vai contra a real diversidade em que vivemos.
Falar de TV e homossexualidade no Brasil e não trazer a tona o caso do beijo lésbico em Amor e Revolução é quase impossível. Porque uma novela que se dizia diferente e tratava de uma revolução (olha que sugestivo) foi preconceituosamente limitada? Ou seja, após a polêmica do "primeiro beijo gay da TV brasileira" foi terminantemente imposto o fim de beijos gays e fim de atos de carinho homossexuais durante a novela, aparentemente chegaram a “deshomossexualizar” um dos personagens. Talvez acreditem que “a cura” para a homossexualidade são roteiristas mais falsamente moralistas e limitados. Talvez acreditem que tirando da televisão aquilo que muitas vezes fecham os olhos para ver dentro da própria casa seja a solução para tudo e não simplesmente deixar de encarar a homossexualidade como problema.
O fato é que o amor entre duas pessoas do mesmo sexo existe. E daí? (Meu sonho era ouvir essa pergunta toda vez que eu fizesse essa afirmativa. Por hora fica só no texto mesmo) E daí, que poderiam morrer de tentar camuflar o relacionamento de Manoella e Angelis dentro do programa, que ele iria aparecer. Não se pode fechar os olhos para a realidade, na verdade se os olhos estivessem abertos veriam um casal igual a outro qualquer (a meu ver me pareceu bem mais sincero e apaixonado do que muitos dentro desse e de outros programas – não que eu seja uma especialista). Era um casal carinhoso, que sentia ciúmes, onde uma cuidava da outra. Um casal que, em especial, não fazia mal a ninguém. Na verdade fazia bem a tantos homossexuais que não se vêem representados pela mídia.  
Ao analisar os vídeos e os comentários que haviam nelas pude perceber a imensa carência que o público gay tem frente a representação. Na medida em que pequenos fragmentos de carinho entres as participantes era caçado e comemorado como grande vitória. Como exemplo de simples selinhos fora de foco bem ao fundo das cenasSimplesmente todo um montante de pessoas que se vêem obrigadas a agirem tal qual mendigos buscando encontrar identidade, implorando por um pouco de atenção positiva da mídia. A TV Record chegou ao extremo de censurar o relacionamento do casal não apenas na edição do programa, mas incluía as cenas do 24 horas pela internet, os profissionais que cuidavam das câmeras cortavam um dobrado para não filmarem nenhum beijo.
Talvez se a emissora tivesse agido com naturalidade frente a essa situação (não que eu ache que isso fosse possível, não espero nada tão sensato desta e das outras emissoras de TV no Brasil) não tivesse despertado tanta comoção dos que se vêm diretamente envolvidos com o preconceito, em especial os homossexuais que sofrem todos os dias com isso e que certamente votaram em massa, não teria despertado uma especie de compaixão entre os que geralmente não se envolvem nesse processo de libertação do indivíduo. Cheguei a ver em muito comentários dos vídeos na internet (que foi por onde analisei o programa) pessoas se dizendo heterossexuais e que a maneira que esse relacionamento estava sendo tratada era errada e injusta. Pessoas essas que se juntaram a massa de votos: o voto contra o preconceito. Pois, como é sabido, nesses programas os participantes saem ou não do programa através do voto do público.
Enfim, ter tratado toda essa situação com naturalidade despertaria a revolta do oposto dessas pessoas, despertaria a ira dos conservadores, hipócritas e falsos moralistas que teriam buscado banalizar aquele amor. Como exemplo disso, vimos muitas vezes entre os outros participantes do programa que faziam piadas sexuais sobre o casal (o que não se via relativo aos casais heterossexuais) e comentários maldosos sobre o caráter das envolvidas, justamente porque para eles aquele show de fofura não era censurado. Provavelmente esses conservadores votariam em massa e em suas cabeças problemáticas votariam a favor dos bons costumes.
Quando coloco a palavra “censurado” no texto é que consigo ver a seriedade existente nessa atitude, como se fosse a exibição de sirial kilers em ação, ou apologia as drogas, ou pornografia, ou pedofilia. Não que simplesmente trata de duas mulheres que têm carinho uma pela outra e que se tratam de maneira tão admirável. Eu digo mais: um exemplo para vários relacionamentos movidos pelo desrespeito entre os envolvidos, ou movidos pelo simples desejo sexual e interesses mesquinhos de várias categorias.
A emissora “atirou no próprio pé” ao condenar o que teve de melhor no programa ao obscurantismo. Apenas conseguiram retratar um âmbito da realidade enfrentada pelos homossexuais no país, criando uma identidade entre as corajosas participantes e o público que sente na pele os arroubos da injustiça e do preconceito todos os dias. Bastava para a emissora tratar com naturalidade, aquilo que de fato é natural, jogando para o público uma realidade e nunca se posicionando de maneira hipócrita e covarde ao impor qualquer prejulgamento, fugindo inclusive da essência do programa. Dessa forma deixaria para o público a responsabilidade pelo posicionamento que viessem a ter, tanto os conservadores hipócritas, quanto as pessoas que entendem a diversidade. Seria uma batalha mais justa, interessante de se ver, intensa de se viver e bem difícil de ganhar, mas apenas a retratação de uma batalha que já existe.



terça-feira, fevereiro 05, 2013

UM ADEUS A ILUSÃO


De você não quero nada
nem a sorte de ter
nem a vontade saciada
ou uma noite...

De você, meu grande amor
só espero ter saudade
um pouco de verdade
e distância pra viver

De você nem despedida
nem saudade
nem paixão

De você apenas eu
Sem você apenas eu 
Um adeus a ilusão