Sei
que o assunto é antigo, mas somente agora eu tive tempo de ver o que aconteceu em
A Fazenda de Verão da TV Record. Onde a emissora deliberadamente omitiu o máximo
possível o relacionamento amaroso entre duas participantes, Manoella e Angelis,
e esse mal provavelmente é o grande motivo de uma delas ter ganho o prêmio. (Não
se sabe quais méritos são preciso para se ter a honra de ser campeão em um
reality show desse estilo. Nada contra a Angelis, a ganhadora, mas para mim Manoella
era muito mais interessante, mas nunca vou entender os resultados de reality
shows).
Não
sei se o objetivo da emissora era não dar ibope para a homossexualidade, ou
talvez tivessem medo de que as pessoas vissem o quanto elas eram bonitinhas
juntas e que talvez ser gay não tenha nada a ver com o demônio ou algo
parecido. Entretanto esqueceram que atitudes tão explicitamente covardes trazem
a tona o espírito de revolta.
Primeiro
a emissora age como todas as outras no Brasil: com hipocrisia ao tentar fingir
que homossexuais não existem e para aqueles que aparecem de qualquer maneira, impondo-se, são condenados ao vilanismo. Podemos perceber bem isso através das tendenciosas
edições do programa, que se fixava em mostrar os defeitos e discussões pela
metade, já que o casal de meninas resistiu de maneira tão meiga, quase
comovente, oficialmente juntas. Outra forma comumente usada pela mídia para trazer o descrédito é fazer do
homossexual sempre a figura cômica. Não que não existam gays engraçados, mas
tratar todas as pessoas através de esteriótipos vai contra a real diversidade
em que vivemos.
Falar
de TV e homossexualidade no Brasil e não trazer a tona o caso do beijo lésbico em Amor e Revolução é quase
impossível. Porque uma novela que se dizia diferente e tratava de uma revolução
(olha que sugestivo) foi preconceituosamente limitada? Ou
seja, após a polêmica do "primeiro beijo gay da TV brasileira" foi terminantemente imposto o fim de beijos gays e fim de atos de carinho homossexuais durante a novela,
aparentemente chegaram a “deshomossexualizar” um dos personagens. Talvez acreditem que “a cura” para a homossexualidade são roteiristas mais falsamente moralistas
e limitados. Talvez acreditem que tirando da televisão aquilo
que muitas vezes fecham os olhos para ver dentro da própria casa seja a solução
para tudo e não simplesmente deixar de encarar a homossexualidade como problema.
O
fato é que o amor entre duas pessoas do mesmo sexo existe. E daí?
(Meu sonho era ouvir essa pergunta toda vez que eu fizesse essa afirmativa. Por
hora fica só no texto mesmo) E daí, que poderiam morrer de tentar camuflar o relacionamento
de Manoella e Angelis dentro do programa, que ele iria aparecer. Não se pode
fechar os olhos para a realidade, na verdade se os olhos estivessem abertos
veriam um casal igual a outro qualquer (a meu ver me pareceu bem mais sincero e
apaixonado do que muitos dentro desse e de outros programas – não que eu seja
uma especialista). Era um casal carinhoso, que sentia ciúmes, onde uma cuidava
da outra. Um casal que, em especial, não fazia mal a ninguém. Na verdade fazia
bem a tantos homossexuais que não se vêem representados pela mídia.
Ao
analisar os vídeos e os comentários que haviam nelas pude perceber a imensa
carência que o público gay tem frente a representação. Na medida em que
pequenos fragmentos de carinho entres as participantes era caçado e
comemorado como grande vitória. Como exemplo de simples selinhos fora de foco bem ao fundo das cenas. Simplesmente todo um montante de pessoas que
se vêem obrigadas a agirem tal qual mendigos buscando encontrar identidade,
implorando por um pouco de atenção positiva da mídia. A TV Record chegou ao
extremo de censurar o relacionamento do casal não apenas na edição do programa,
mas incluía as cenas do 24 horas pela internet, os profissionais que cuidavam
das câmeras cortavam um dobrado para não filmarem nenhum beijo.
Talvez
se a emissora tivesse agido com naturalidade frente a essa situação (não que eu
ache que isso fosse possível, não espero nada tão sensato desta e das outras
emissoras de TV no Brasil) não tivesse despertado tanta comoção dos que se vêm
diretamente envolvidos com o preconceito, em especial os homossexuais que
sofrem todos os dias com isso e que certamente votaram em massa, não teria despertado
uma especie de compaixão entre os que geralmente não se envolvem nesse processo
de libertação do indivíduo. Cheguei a ver em muito comentários dos vídeos na
internet (que foi por onde analisei o programa) pessoas se dizendo heterossexuais
e que a maneira que esse relacionamento estava sendo tratada era errada e
injusta. Pessoas essas que se juntaram a massa de votos: o voto contra o
preconceito. Pois, como é sabido, nesses programas os participantes saem ou não
do programa através do voto do público.
Enfim,
ter tratado toda essa situação com naturalidade despertaria a revolta do oposto
dessas pessoas, despertaria a ira dos conservadores, hipócritas e falsos
moralistas que teriam buscado banalizar aquele amor. Como exemplo disso, vimos muitas
vezes entre os outros participantes do programa que faziam piadas sexuais sobre
o casal (o que não se via relativo aos casais heterossexuais) e comentários
maldosos sobre o caráter das envolvidas, justamente porque para eles aquele
show de fofura não era censurado. Provavelmente esses conservadores votariam em
massa e em suas cabeças problemáticas votariam a favor dos bons costumes.
Quando
coloco a palavra “censurado” no texto é que consigo ver a seriedade existente
nessa atitude, como se fosse a exibição de sirial kilers em ação, ou apologia as
drogas, ou pornografia, ou pedofilia. Não que simplesmente trata de duas
mulheres que têm carinho uma pela outra e que se tratam de maneira tão
admirável. Eu digo mais: um exemplo para vários relacionamentos movidos pelo
desrespeito entre os envolvidos, ou movidos pelo simples desejo sexual e
interesses mesquinhos de várias categorias.
A
emissora “atirou no próprio pé” ao condenar o que teve de melhor no programa ao
obscurantismo. Apenas conseguiram retratar um âmbito da realidade enfrentada
pelos homossexuais no país, criando uma identidade entre as corajosas
participantes e o público que sente na pele os arroubos da injustiça e do
preconceito todos os dias. Bastava para a emissora tratar com naturalidade, aquilo
que de fato é natural, jogando para o público uma realidade e nunca se
posicionando de maneira hipócrita e covarde ao impor qualquer prejulgamento,
fugindo inclusive da essência do programa. Dessa forma deixaria para o público
a responsabilidade pelo posicionamento que viessem a ter, tanto os conservadores hipócritas, quanto as pessoas que entendem a diversidade. Seria uma batalha
mais justa, interessante de se ver, intensa de se viver e bem difícil de
ganhar, mas apenas a retratação de uma batalha que já existe.



perfeita a sua colocação.
ResponderExcluirQue bom que você gostou. =D
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